O corte de energia nos perímetros irrigados, provocado pela inadimplência da Codevasf junto à concessionária, deixou bombas paradas, plantações ameaçadas e famílias inteiras vivendo sob incerteza.
É inadmissível que agricultores de municípios ribeirinhos tenham sido empurrados ao desespero, chegando a protestar e bloquear rodovias para serem ouvidos. Quem produz não pode ser tratado como último elo da corrente, pagando o preço da desorganização e da falta de planejamento do poder público.
Se havia débito acumulado entre órgãos públicos e concessionária, a solução deveria ter ocorrido antes do colapso, e não depois da revolta dos produtores. Água e energia para irrigação não são luxo — são condição básica de sobrevivência econômica do Sertão. Cada hora sem bombeamento representa prejuízo, perda de safra e ameaça à renda de milhares de famílias.
O episódio também expõe uma contradição recorrente na política pública: programas de assistência e transferência de renda são importantes em contextos de vulnerabilidade, mas não podem substituir — nem se sobrepor — a políticas consistentes de infraestrutura, produção e autonomia econômica. Quando a base produtiva é fragilizada por falhas de gestão, cria-se um ciclo de dependência que prejudica justamente quem tenta produzir e reduzir sua vulnerabilidade.
A retomada do fornecimento é necessária, mas não basta. É preciso responsabilidade, previsibilidade e garantia de que os produtores do Sistema Itaparica não voltarão a viver reféns de impasses burocráticos entre governo e concessionárias.
O Sertão não aguenta mais soluções tardias para problemas que deveriam ter sido evitados.




